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sábado, 12 de novembro de 2011

“LIVRA-NOS DO DEUS QUE DÁ MEDO” - 33o. Domingo Comum - Ano A - 13/11/2011

“LIVRA-NOS DO DEUS QUE DÁ MEDO”

“De Deus dizemos tranquilamente coisas que não nos atreveríamos dizer de nenhuma pessoa decente” (Tony de Mello)

Chegamos à pós-modernidade com uma enorme carga de medo; somos atormentados o tempo todo pelo medo; um medo sem nome, um fantasma sem rosto, escuro como uma sombra e rápido como uma tempestade; medo cruel que afeta os corajosos e agride os ousados. O medo deixa as pessoas vulneráveis à manipulação. Uma longa cadeia de medos, da primeira à última respiração, nos ameaça nesta terra de sombras.

Diferentes medos congelam nossas relações, atormentam nossa vida, quebram nossa serenidade, obscurecem o nosso próprio ser, matam nossos so-nhos e intuições: medo do fracasso, da velhice, medo de mudanças, medo de decidir, medo de não corresponder às expectativas dos outros, medo de perder o emprego, medo de se comprometer, medo da situação social-econômica, medo da violência, medo do diferente, medo do vazio, medo do outro, medo da solidão, medo do novo, medo de viver e de morrer, medo de dizer a verdade (dá medo porque também se tem medo da verdade), medo do futuro...; há um medo silencioso que se manifesta na falta de sentido da vida: o medo que abala as razões para viver. Nada mais terrível do que ter medo de tudo. Com medos é insuportável viver.

O medo é um câncer que ameaça à fé, ao amor e à esperança de pessoas e instituições; ele corrói as fibras humanas, asfixia talentos, esvazia a vida e mata a criatividade.

O medo encolhe o ser humano, inibe a decisão e bloqueia os movimentos em direção ao “mais”.

A intensidade do medo pode anular a capacidade de reação das pessoas ou das instituições; ele impede o discernimento e a busca da solução mais inteligente para os problemas; longe de resolvê-los, pode agravá-los a médio e longo prazo.

Enfim, o medo obscurece o sentido e a direção da vida, tira o brilho tão próprio do amor; ele nos acovarda e nos enterra na acomodação mesquinha. E este medo se projeta na relação com Deus, ou seja, o medo nos faz projetar uma falsa imagem de Deus.

Quem pensa e sente dessa maneira, dificilmente pode relacionar-se com o Deus que Jesus nos revelou. Deus já não é o Pai misericordioso, senão o Transcendente que se compreende a partir do poder, da grandeza, da onipotência e tudo o que supera infinitamente o ser humano. Como conseqüência a relação com Ele já não é mais vivida a partir da bondade e do amor, mas da força e do medo.

Quem está convencido de que Deus atua assim, na realidade crê num “Deus” que é um constante perigo e uma ameaça insuportável.

Por isso, é urgente acabar com a imagem de Deus que ameaça, que não liberta nem cura, que nos amarra e não nos deixa viver.

Nesse sentido, é útil mergulhar e conhecer o verdadeiro sentido da Parábola dos talentos (Mt 25,14-30).

Normalmente, costuma-se explicar esta parábola dizendo que Deus dá a cada pessoa uma quantidade determinada de talentos, divinos e humanos, dos quais terá de prestar contas a Ele, até o ultimo centavo, no dia do Juízo Final. Quando se interpreta a parábola dessa maneira, o Deus que aí aparece é uma ameaça insuportável; ao considerar a parábola como uma exortação à responsabilidade, falsifica-se o sentido autêntico da mesma. O que está em questão aqui é a “imagem” de Deus que todos trazemos.

Temos de levar em conta a situação concreta que Jesus vivia quando falava em parábolas. Ele viveu situações muito conflitivas e de enfrentamento com os fariseus, os sumos sacerdotes, os mestres da lei.

Mateus coloca esta parábola em um momento de máxima tensão e enfrentamento de Jesus com os fariseus; concretamente, com o “Deus” dos fariseus, que era um Deus terrível, ameaçante e justiceiro.

O indivíduo que recebeu um só talento estava convencido de que o “senhor”, ou seja, Deus, é “duro”, pois “colhe onde não semeou e ajunta onde não espalhou”. Esse indivíduo tinha uma idéia terrível de Deus. E por isso, como é natural, “tinha medo”; e o medo o levou a “esconder o talento debaixo da terra”. Isso, precisamente, foi sua perdição. O medo paralisa, ou seja, torna as pessoas estéreis.

No fundo, Jesus está dizendo o seguinte: “o Deus que ameaça com a exigência da prestação de contas até o último centavo, é um Deus que bloqueia e anula as pessoas, os grupos, as comunidades”.

Porque todo aquele que traz em sua consciência um Deus que mete medo, não fará nada nesta vida que valha a pena, já que o muito ou o pouco que recebeu será enterrado, por causa do medo. A promessa converte-se em ameaça, o chamado em imposição, a existência em castigo, o Evangelho em lei.

Crer em um Deus que pede conta até o último centavo é o mesmo que crer em um juiz justiceiro que torna a vida amarga e pesada. Sem a superação cotidiana dos medos, nossa experiência de Deus estará comprometida, perderá sua força inovadora e nos fará menos humanos.

A fé no “Deus que dá medo” se expressa no medo permanente como atitude de vida. Demasiado temor, demasiada falta de espontaneidade e de alegria na relação com Deus.

De fato, não existe depósito de munição mais potencialmente explosivo do que os estoques de medo guardados nas escuras profundezas do nosso ser.

É preciso rastrear, identificar, compreender e desterrar os medos de nossos corações.

É urgente substituir a cultura do medo pela cultura da coragem. A coragem desbloqueia energias, impulsiona decisões, levanta projetos, reacende a criatividade e o gosto por viver.

E do coração amoroso e maternal-paternal de Deus brota este convite: “Não tenhais medo”.

Um convite com força libertadora; é a força da Graça de Deus que alavanca o passo para a frente: o passo da mudança, o passo da ousadia de sonhar de novo, o passo do trabalho criativo...

As batalhas mais profundas do espírito se conquistam com o atrevimento da coragem, com a força da fé, com a imaginação solta, com a criatividade livre e desimpedida..

Texto bíblico: Mt 25, 14-30

Autor: Pe. Adroaldo sj

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Domingo, 13 de novembro 2011: 33º Domingo do Tempo Comum – Ano A



Provérbios 31,10-13.19-20.30-31; Salmo 127; 1 Tessalonicenses 5,1-6; Mateus 25,14-30
O mundo em nossas mãos
A imagem do patrão que se ausenta aparece muitas vezes nas parábolas de Jesus. A razão disto é que somos nós que estamos nelas: o próprio Jesus, mesmo sendo a visibilidade do Deus invisível, irá desaparecer. Assim, aqui estamos nós, neste estado de “crer sem ver”. Mais ainda: em certo sentido, Deus não age diretamente no mundo e na história. Os “talentos” foram todos entregues aos homens: estão em nossas mãos. Tudo isto já foi dito com outras palavras, em Gênesis 1,28. E se Jesus volta ao assunto é porque quer que tomemos consciência de nossa responsabilidade e de nossa dignidade. Foi-nos confiada a gestão da obra do próprio Deus. O amor de Deus para com cada um de nós passa pelos outros, por todos os outros: por mim, por vocês... Vivemos isto na aparente ausência daquele que nos faz ser, na noite da fé. Mas, um dia, tudo isto virá à luz: Luz de Deus, retorno do Cristo, a volta do patrão da parábola. Devemos notar as diferenças entre o acerto de contas com os diversos “empregados”: não temos todos, as mesmas capacidades. Não vamos, pois, nos surpreender se outros se saem melhor do que nós. Todo o amor do mundo pode ser posto em cuidar de algo que é “pouco”, mas um pouco que está na medida das nossas possibilidades. E que se tornará como diz Jesus “muito mais”, conforme a palavra usada para qualificar o futuro do primeiro e do segundo empregados. Pode ser pouco o que fazemos, em conformidade com os nossos meios, mas este pouco nos torna participantes da totalidade da obra divina que é a criação do mundo. Podemos notar que as quantias confiadas aos empregados não são recuperadas pelo patrão, mas permanecem em poder dos servidores. Somos, de fato, convidados a entrar na alegria de Deus. “Vem participar da minha alegria!”, diz o senhor aos dois primeiros. Talvez não sejamos bastante ambiciosos.
O terceiro empregado
Não bastante ambiciosos porque não confiantes o bastante. O que se esconde por detrás de nossas indolências e inércias é a penúria de fé. O terceiro empregado enterrou o talento porque desconfiava de seu patrão. Ele o via como um homem severo, que colhe onde não semeou. Não crendo no amor, este terceiro empregado não pode encontrar o amor. Teresa de Lisieux dizia que Deus se comporta conosco conforme a imagem que fazemos dele. Se você acredita num mestre duro, terá que prestar contas a um mestre duro... Pois é exatamente isto o que acontece na parábola. A dificuldade está toda do lado do homem. É o homem que se fecha ao amor; a este amor cuja visita recusa-se a receber, por não acreditar em sua existência. Ao enterrar o talento recebido, o que o terceiro empregado enterrou foi o amor. Amor? Enterrou o próprio Deus. Tudo isto prefigura a Paixão e o Sepultamento do Cristo. O Amor nos deu então a própria vida que dele queríamos tomar. Devido a este último dom, é ele, o Amor, quem tem a última palavra. O novo Adão renasce da poeira e entra na alegria de Deus. Cada um de nós é chamado a percorrer este itinerário de um novo Êxodo. O terceiro empregado não foi convidado a entrar, mas, pelo contrário, foi jogado “lá fora, na escuridão”. Surpreendente? Desconcertante? Não veio, o Filho do homem, buscar e salvar o que estava perdido (Lucas 19,10)? Temos aqui uma passagem do Evangelho que está em contradição com os anúncios de salvação universal. Jesus revela aqui o que deveria acontecer normalmente. Afinal, ele é quem será lançado “lá fora”, fora da cidade dos homens (ver Hebreus 13,12-14). Despojado de tudo, dará sua vida para transmiti-la a cada um de nós. Tomou o lugar deste terceiro servidor.
Marcel Domergue (tradução livre de www.croire.com por Xico e José Lara)